Oeste

Não posso me esquecer! Preciso guardar isso, preciso transformar em mais do que lembrança. Os objetos que são significativos guardamos conosco, mas o que importam os objetos? Quero lembrar o que preciso lembrar. Os momentos que ninguém mais no universo é capaz de descrever, pelo simples fato de ser eu, um telespectador com um ponto de vista único. Infinitamente único.


A única maneira de guardar uma história é escrevendo. Façam-se as camuflagens necessárias, criam-se as fantasias decorativas, mas no fundo o que se guarda é a essência de uma vida particular.


Desculpe, desculpe. É difícil entender tanto quanto começar...


Escrever sobre não escrever é um exemplo muito peculiar de paradoxo. O próprio meio utilizado já é por si só contraditório. Trata-se de uma modalidade de contradição que abrange uma maior variedade de âmbitos, como é também no caso de "falar sobre não falar". Algo como uma generalização formalizada da sabedoria popular "faça o que eu digo, mas não faça o que faço." Mantendo essa linha divagante, eu iria contar a história da narração da história, ao invés da história, o que seria um absurdo imperdoável. Voltemos, voltemos...


Imagine um galpão ridiculamente desarrumado. Com toalhas por todos os lados, mistura de cheiros, que de tão homogênea, impossibilita a distinção da origem de cada odor, camadas de poeira nas superfícies a ponto de não ser possível saber suas cores, nem suas texturas, poças espalhadas aleatoriamente pelo chão, que onde parece seco, gruda nos pés como se fosse um chiclete gigante e planificado. O ar é turvo e pesado. A luz é amarela e pouca, mas o suficiente para dar ciência a quem entra, do estado em que se encontra o lugar. Há garrafas e copos vazios, além de outros objetos que não deveriam estar onde estão.


Agora se coloque no lugar de alguém que deve arrumar tudo. Deixar limpo, cheiroso e habitável. Essa é rigorosamente a sensação, ou devo dizer sentimento, que ocupa minha cabeça no instante em que resolvo começar a contar o que me propus a contar quando escrevi a primeira palavra desta página. Não sei se existe um nome, mas seria algo que signifique "não saber por onde começar". São tantas coisas, e tão grosseiramente desarrumadas, que simplesmente não existe uma forma de definir o começo, ou por onde começar. Poderia ser desespero, mas essa sensação carrega consigo um lado lamentoso que não vem ao caso. Sigamos, portanto, apenas com um significado, independente do nome que tenha, se tiver.


Todo mundo vive achando que a vida é um filme. Mesmo antes de os filmes existirem, achavam então que a vida era sua história sendo narrada, como as histórias que na sua vida lhe eram. E assim foi o surgimento da humanidade, não do ser humano, mas da humanidade como civilização. Quando começamos a contar de uma geração para a outra as coisas das gerações anteriores. E até hoje é assim que funciona. Com diversos novos mecanismos além da simples oralidade, continuamos basicamente replicando o que de gerações passadas sabemos, por meio de histórias, a que me referi filmes (o que no fundo dá na mesma, mas de qualquer forma é bom deixar bem claro).


"o que importa na vida é aquilo que vale ser narrado." As viagens, os lugares visitados, as glórias vividas, o reconhecimento, as tristezas, e toda a vida de alguém, não é nada mais que o filme que esse próprio alguém cria e é o personagem principal. E quem discorda disso, me desculpe, mas está equivocado. Equivocado pelo simples fato de isso não ser um objeto para ser discutido, e, portanto, discordado. É um fato, que além de óbvio, tem todas as demais características relativas ao termo vocabulárico "fato". E uma delas é ser indiscutível. A menos que não tenha compreendido a idéia que foi escrita, a discordância não está em questão. Se for esse o caso, temos um problema estrutural, mas isso não tem uma interferência tão profunda na narrativa, e se mesmo relendo, você ainda não entende o que está escrito, não se atenha e vá adiante.


Acabei por antecipar o final da própria história, mas a essa altura do campeonato não sei ainda se ela continua a ser o grande motivo disso. É claro que permanece absolutamente necessária, mas não da forma que era. Antes era necessária e principal, agora apenas necessária. Como uma espécie de um baixo num conjunto musical. Isso não significa que vou deliberadamente deixar de narrar algum acontecimento, é importante alertar apenas para que não se esperem grandes surpresas, porque o final, que geralmente é a melhor parte (se tratando de surpresa), já foi dito.


A ausência de ponto de partida me perturba de novo...


Vou fazer a caracterização do lugar, das pessoas, do ambiente e do meu estado mental no momento em que tudo aconteceu.


Escuro e cheio, barulhento e frio. As criaturas só eram diferenciadas pelos contornos das sombras. A pouca claridade que entrava era da lua, que teimava em fazer-se penetrar pelas janelas altas e portas abertas. As paredes não eram de tijolos. Eram pedras colocadas umas sobre as outras. Pedras retangulares, velhas. A música ritualística soprava melodias que possuíam os corpos dos presentes como espíritos, fazendo-os dançar como em uma cerimônia de tribo medieval.


Olhei pra cima, procurando alguma explicação. Sentia-me nascido àquela hora. Sem saber falar, nem andar. Como se tudo que tivesse vivido até esse dia fosse um sonho, e eu acordava pela primeira vez. Cogitei estar maluco. Como fui parar num castelo desses? Será que existem dragões? Será que estou vivo? Abri a boca pra gritar, mas o som não saía. A música tocava tão alto que abafava minha própria voz. Olhei ao redor procurando algo escrito, os olhos giravam em movimentos involuntários. Procuravam algo que fosse real, algum nome, propaganda ou até uma placa indicando onde era o banheiro. Nesse momento esfreguei as mãos na barriga e no peito para assegurar-me de estar vestido. Balancei as pernas, que foram pra frente e voltaram batendo em alguma superfície. Constatei a partir disso que me encontrava sentado sobre algum parapeito. Finalmente fiquei livre dos reflexos que ocupavam minha visão e pude olhar a mim mesmo, tendo agora a certeza de estar sentado em cima de um palco vazio, com os pés quase a tocar no chão da região destinada à platéia.


Aquela macumba toda, com aquelas danças esquisitas, aqueles corpos sacolejantes como lacraias, o castelo, os gritos e as paredes úmidas, aquilo tudo não fazia sentido.


Um rosto conhecido, finalmente um rosto conhecido! Mas os olhos brilhavam, iluminavam, podia notar nitidamente um feixe de luz que seguia a direção do seu olhar. Meu companheiro de viagem era poderoso, isso eu sabia, mas depois de vinte anos viajando juntos, era a primeira vez que via uma manifestação do seu poder. As luzes pareciam querer dizer alguma coisa, eu sentia um sinal, mas era indecifrável. Fechei novamente os olhos, achando que dessa forma voltaria à condição que me encontrava antes de tê-los aberto.


Impossível! A música agora era ensurdecedoramente agradável. Daquelas que fazem as extremidades dos nossos corpos balançarem involuntariamente, sem mesmo que percebamos. Quando dei por mim, dançava como uma bailarina gótica. Giros e pulos sincronizados. Jamais imaginei que fosse capaz, aliás, nunca pensei que meu corpo fosse tão flexível e ágil. É engraçado, pois se a limitação não era física, o que me impedia de fazer aquilo era mental. Como se eu não conseguisse executar movimentos até mais simples que aqueles por não querer fazê-los, e não por falta de capacidade.


"Plof!", Um sonoro tapa em minhas costas.


Abro os olhos, estou sentado no mesmo lugar. As pessoas dançando, a cena toda de novo na minha cabeça. A cena toda de novo acontecendo.


"Plof!", Um sonoro tapa em minhas costas.


Ao virar, vejo um clarão, vindo de uma lanterna ocular. Coloco as mãos na frente, tentando aparar aquela luminosidade escandalosa. Em vão.


Salto do palco, e decido correr até a primeira porta que vejo.


"Meu caro, estou no meu estado natural", seja lá o que signifique isso, lembro precisamente ter sido essa a frase que ele disse antes que eu não mais fosse capaz de escutar o que falava. "estar num estado natural", o que diabos significa isso? Enquanto assimilava a situação, tentando me encontrar dentro do que parecia ser um novo universo, caminhei a passos largos rumo à porta.


Era uma fronteira, definia o que estava dentro de um lado, e do outro. A porta é um objeto filosoficamente muito interessante. Essa noção de estar dentro, de divisão entre duas possibilidades de se estar, pode ser usada em muitas idéias metafóricas. E podemos incluir a noção de fechadura, filosoficando ainda mais os significados. A rigor, uma definição mais abrangente diria apenas que é o lugar por onde se entra ou sai de outro, não pressupondo a existência de uma representação física concreta. A porta, portanto, é tudo e nada ao mesmo tempo, considerando que estamos num eterno rito de passagem de um lugar, para outro.


Há situações em que agimos como se tivéssemos tomado alguma poção mágica, cujo efeito emana um poder que nos faz capaz de descobrir coisas absolutamente óbvias, mas que ninguém percebia, ou que simplesmente nós mesmos nunca havíamos percebido (o que já é suficiente para ser mágico). Do lado de fora daquela porta, era tudo óbvio, nítido e claro. As conversas eram previsíveis, os movimentos, as reações, as respostas, as perguntas, as pessoas, os objetos, o ar, a falta de ar, o céu, as estrelas, as nuvens, o som esquisito abafado pela distância e as bebidas! Por que o homem utiliza tanto as bebidas. Por que as celebrações são regatas de líquido e tão carentes de comida?


Não fazia sentido conversar com ninguém, pois já sabia tudo que me responderiam. A vontade era de abaixar em posição fetal, e me deixar estar embaixo de uma mesa. O fechar de olhos me transformava num parafuso que girava velozmente a ponto de furar o chão. Podia sentir-me entrando pela terra, com os grãos a escorrer pela minha pele, cabelos e bolsos. Ia fundo, muito fundo. Mas uma sensação de medo de não voltar me tomava conta. Nadar em baixo d'água é bom, mas não podemos esquecer que nosso fôlego é finito, até porque se não fosse, nem existiria fôlego. Não havia água, mas me sentia segurando a respiração enquanto aquilo durasse.


"Plof!", Um sonoro tapa em minhas costas.


Abro os olhos, estou sentado, em outro lugar.


"Você é o mago?"


Que tipo de pergunta era aquela? Qual diferença fazia eu ser o mago?


Não importava quem era o mago, desde que quem me fez a pergunta soubesse quem era. Então por que não me perguntou quem era o mago? Na cabeça dele só existiam duas possibilidades, ou eu era o mago ou não sabia quem era. São dois opostos contraditórios, imperceptivelmente contraditórios.


"O mago é ele." Foram minhas palavras, apontando para o mago. Eu sabia quem era, pois sabia de tudo, sabia inclusive o que nem a própria pessoa que ouviu a resposta queria perguntar. Eu respondi a uma pergunta que não me foi feita, que não foi sequer pensada, e que, no entanto, respondia a todas as dúvidas sobre o assunto em questão. O ato de ter dado a melhor resposta não constituiu mérito nenhum, mas a consciência de ter notado a diferença entre o que deveria ser, e o que foi perguntado constituiu, e sem dúvida, constitui até agora. Se todos perguntassem o que querem de fato saber, se todos procurassem a resposta mais óbvia de todas, se todas as respostas fossem honestas, ...


"Plof!", Um sonoro tapa em minhas costas.


Abro os olhos, estou sentado, em outro lugar. A luz ocular ofusca minha visão. Tento aparar com as mãos, porém a luminosidade emerge pelos triângulos formados pelos espaços entre meus dedos. São polígonos de três lados, estampados reflexivamente no meu corpo, no meu rosto, nos meus olhos. Estou numa nuvem, voando, voando, voando... O silêncio seria daqueles avassaladores, não fosse a música tribal que cismava em permanecer como trilha sonora. Não há pássaros, não há aviões, não há estrelas, não há pessoas, não há calor, nem frio, nem construções, nem bichos, nem deuses, não há nada senão eu, o branco, e o vento. Um vento quente, muito quente, mas inacreditavelmente refrescante. Pela primeira vez na minha existência pude sentir a quentura refrescante da vida, sempre achei que a refrescância pressupunha frieza.


O branco cria um ponto. À medida que sinto o vento mais forte, percebo sua envergadura aumentar, até o momento de constatar que trata-se de uma verdadeira esfera. Não tive medo, nem pudor, o único sentimento que lembro ter sentido foi indiferença.


"Há coisa mais fácil do que se criar um ponto preto no meio do branco?"


"O mundo não passa de um ponto branco no meio do preto."


"Plof!", Um sonoro tapa em minhas costas.


Não abro os olhos, pois já estavam abertos. Viro para trás, e dessa vez consigo enxergar meu companheiro de viagem. Estávamos os dois no mesmo lugar, no branco. A esfera sumiu, sem despedidas nem cerimônias. Aos poucos o branco dá espaço para pessoas, construções, lajotas úmidas e a luz da lua. A música se une a vozes e barulhos aleatórios, compondo uma nova trilha sonora.


Finalmente eu pergunto:


"Onde estamos?"


Milhões de interpretações podem ser dadas ao que foi perguntado. A mais clara, obviamente, seria a respeito do local onde acordei, ou do branco, ou então da transição das duas coisas. Mas o que eu queria saber era tão óbvio, tão primitivo, tão essencial e honesto, que ninguém mais além dele poderia responder. Todas as indagações chegam a uma conclusão comum, isso já era do meu conhecimento, mas que resposta é essa? Perguntar qual é a resposta soa estranho...


Ele começa a correr desesperadamente. Vou atrás, transformando-nos numa manada de dois mamutes. As pessoas que antes me pareciam tão imaginárias atrapalham o caminho, servindo de obstáculos, formando barreiras irritantemente transponíveis, obstáculos inertes a nosso caminho rumo até não sei onde.


Passam-se cartazes, paredes, bancos, cadeiras, guitarras, mesas, portas, janelas e mais pessoas, até finalmente chegarmos. Uma velha escrivaninha, onde algum dia uma senhora fez tricô, com um antigo espelho em cima, onde algum dia essa mesma mulher se olhava com cuidado para retocar a maquiagem. Em cima da superfície estava o papel, em letras horrendas, porém compreensíveis. Ele me apontava, tapando os olhos, emocionado.


Calmamente, caminho até o ponto onde consigo ler. O que estava escrito eu jamais lembraria com clareza, as palavras, a ordem em que foram escritas, o espaço entre os pensamentos. Poderia levar comigo aquele pedaço de papel, mas não, pertencia ao lugar, pertencia à circunstância.



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