Os dois corpos estavam absolutamente nus, deitados no chão. As solas dos pés de um quase tocavam nas do outro. Totalmente depilados, não possuíam nenhuma irregularidade na pele – nem mesmo aquela camada áspera que se forma quando os pêlos são raspados. A lâmpada, no alto, já estava acesa, aliás, permanecia acesa desde o começo. Seus raios formavam uma circunferência, iluminando o piso branco, delimitando a região que podia ser vista e a escuridão total. Não era possível avistar-se no horizonte, cada vez mais preto, qualquer outro foco de luminosidade. Poderiam até existir outras lâmpadas como aquela, mas pra encontrar seria preciso muita coragem e sorte.
De cada um dos umbigos saía um cano que subia em direção a tal lâmpada. Era transparente e flexível, graças a sua forma sanfonada. Verificava-se uma certa quantidade de bolhas que subiam e desciam - desciam mais que subiam no balanço final - em direção ao interior de cada um dos corpos. Os rostos permaneciam encobertos pela penumbra, e a sensação era de que foram decapitados. Mas essa era só a sensação inicial, daquelas que temos quando olhamos alguma coisa de relance, porque reparando bem, podia-se perceber claramente que não havia descontinuidade entre o corpo e a cabeça, isso sem falar na ausência de sangue, o que só seria possível se os cadáveres estivessem totalmente secos por dentro - as peles rosadas indicavam que não era esse o caso.
A primeira modificação na paisagem, que permanecera inalterada por muito tempo, foi o levantar sutil dos dedões do pé do corpo à esquerda. Eram gordos, com unhas grandes. Os indicadores - se é que existe indicador no pé – eram maiores, em comprimento, que todos os outros dedos. O mindinho afinava, se fazendo parecer um foguete. Aos poucos os movimentos ficavam mais rápidos, e todos os dedos passavam a acompanhar a oscilação do dedão. No corpo da direita percebia-se um fenômeno semelhante, só que não eram os dedos que mexiam, e sim os pés, ossudos e enrugados, que balançavam no mesmo ritmo, para um lado e para outro. Era o final da calmaria, o início do próximo fim. Os corpos despertaram, e pareciam tentar sair de uma casca imaginária através dos gestos sistemáticos - quase involuntários - que faziam as extremidades sacudirem. Em pouco tempo estavam epileticamente se debatendo: as costas colavam e descolavam do chão, enquanto os cotovelos comprimiam e se afastavam das costelas.
Durou muito, mas parou de repente, como se alguma reação orgânica interna aos corpos tivesse terminado. Finalmente estavam prontos. Os joelhos – os quatro, dois de cada corpo – dobraram e os troncos se ergueram. Metade dos rostos emergiram da penumbra, deixando parte das costas, incluindo a nuca e a região da cabeça onde nascem as orelhas, na escuridão. Eles se olharam.
O da direita tinha um nariz comprido, uma feição cansada e cheia de rugas. Sua fisionomia seria até normal, não fosse a ausência de um detalhe importante, apesar de ser detalhe: não tinha pêlos no rosto, nem os cílios, nem as sobrancelhas. Os olhos azuis eram opacos e sem vida. As mãos abriam e fechavam como se fossem engrenagens que tivessem paradas há muito tempo, com os movimentos das articulações quebrando as ferrugens. O da esquerda estava igualmente sem pêlos, porém ao invés das mãos, abria e fechava as pálpebras. Seu nariz era redondo e pequeno, gordo como seu dedo. O olhar era negro e penetrante. Os traços finos, envelhecidos e retos de um corpo, contrastavam com o arredondamento, a maciez e a jovialidade das formas do outro.
“Quem é você?”, isso foi o que disse o da direita ao da esquerda, que pareceu não escutar, mas mesmo se escutasse não compreenderia, pois não conhecia aquele idioma. “Onde nós estamos?” foi a resposta que, não tendo significado para o autor da pergunta, que também não conhecia a outra língua, foi interpretada como sendo o nome – embora um nome esquisito – do corpo da esquerda. Nem mesmo a entonação reticente, comum às interrogações, foi possível identificar.
Demoraram a perceber o cano que entrava pelos umbigos. O da direita notou em si próprio de primeira, e começou a apalpá-lo, o da esquerda só depois de reparar no outro, e simplesmente começou a puxar violentamente. Assim que conseguiu arrancá-lo, deu um grito terrível e saiu correndo pela escuridão.
Sobrou apenas a luz e um corpo. Passou horas analisando o umbigo, a junção entre a parte robótica e a humana, embora não tivesse certeza de que a parte que não era humana fosse robótica. Já tinha reparado num botão bem perto da barriga, mas não apertava por medo dos efeitos que pudesse causar. O tempo passava, mas ele não conseguia saber quanto, poderiam ser dias, ou horas, ou semanas. O organismo não sentia fome, nem vontade de urinar ou defecar, sentia muito calor, e embora não suasse, demonstrava estar incomodado. Mantinha-se sentado no centro do círculo de luz, volta e meia levantando, aparentemente para checar algum barulho vindo da escuridão. Nas vezes que tentou olhar para a lâmpada, acompanhando o trajeto do cano, sentiu tontura. A luz era muito forte, e quando a vista chegava muito perto do foco luminoso, a imagem ficava toda embaçada.
Não era exatamente um sentimento ruim, tirando o calor, nada incomodava muito. O corpo estava confortável, sentindo que podia permanecer assim por quanto quisesse. Mas a curiosidade é da natureza dos corpos, e a repulsa ao tédio também. Foram esses os motivos que levaram o botão a ser apertado. O cano desconectou-se, os efeitos foram imediatos. Os olhos azuis não viram nenhuma diferença, os narizes não cheiraram nada novo, mas o calor tornou-se insuportável. Era um calor aguado, úmido e viscoso. O corpo nadava em uma piscina de azeite quente. Não que estivesse de fato em uma piscina de azeite, isso não existe, mas era assim que se sentia. A constatação de que aquilo não era sonho foi mortal. Ele pensava no outro corpo, que saiu correndo - quem seria, de onde vinha, o que fazia ali. Depois começou a pensar essas mesmas coisas, só que a respeito de si. Foi quando entrou em desespero. O suor começava a pingar sobre o piso, e evaporava rapidamente com o calor produzido pela força da luz. O corpo derretia...
Passaram-se horas de tortura. Daí vieram o sono, a fome, e a vontade de defecar – era impossível que tivesse vontade de urinar, pois pela quantidade de líquido que saia na forma de suor, não sobraria nada pra sair de outras formas. Andava em círculos, parava no centro, sentava, levantava de novo, coçava a cabeça, dava tapas no rosto e contorcia-se como os cachorros quando estão molhados. Seu pensamento era confuso e difícil, mas não o suficiente para impedir que percebesse a solução: recolocar o tubo no umbigo.
Antes que conseguisse terminar o encaixe, defecou. Um tolete rígido e arqueado caiu no chão, chegando a produzir um ruído seco. Imediatamente o conforto instaurou-se no corpo, que observava indiferente seu dejeto derretendo e manchando o piso. O calor persistia como sendo o único incômodo – cada vez mais irritante. Sentado no centro do círculo iluminado, o corpo raciocinava e fazia desenhos no ar com as mãos. Continuava a pensar sobre sua condição, no outro corpo, no tubo, no escuro e nos motivos que o levaram a estar lá.
Ainda havia suor, escorriam as gotas formadas antes do re-encaixe do cano. O corpo notou que acontecia uma reação química quando o líquido caía na mancha deixada pelo coco, fazendo-a se dissolver até sumir, como mágica. Embora confuso, e sem entender nada - a começar por onde estava – ele aparentava saber que a situação merecia mais desespero. Queria desesperar-se, sabia que o certo era fazer isso, mas não conseguia. Não chegou exatamente a esquecer do outro corpo, mas acreditava que tivesse morto, o que não seria de todo mal, considerando o sofrimento que era viver ali sem o tubo. De qualquer forma, nada podia ser feito...
De novo sentado no meio do círculo, agora livre das curiosidades, concentrava-se em manter o olhar na direção de onde vinham os barulhos - encarava a escuridão. Ficou na dúvida se realmente eram sons inofensivos, ou se a falta de medo estava de alguma forma relacionada ao líquido do tubo. Também cogitou a possibilidade de estar imaginando coisas. A intensidade dos ruídos aumentava, mas seu medo só diminuía. Esperava com calma a aproximação lenta de algo que vinha na direção da luz. Ouvia sem se mexer a mistura de soluço sombrio com respiração ofegante. O que quer que fosse, estava vivo, se movia com dificuldade e sofrimento. De início não reconheceu o corpo peludo e suado que caiu no chão ao brotar da sombra, mas quando reparou no tubo que nascia do seu umbigo não teve dúvidas. A cor rosada de antes foi substituída por um amarelo moribundo e a pele lisa tornou-se cabeluda, mas os pés gordos eram inconfundíveis.
“Onde nós estamos?” foi o que disse o da esquerda ao da direita, e embora quisesse de fato saber onde estava, não era esse o intuito da pergunta que, aliás, não era nem pergunta. Na verdade, queria confirmar a identidade do corpo que acabava de chegar, e para isso chamou o que imaginava ser seu nome. O corpo peludo esboçou um sorriso, feliz por encontrar alguém que falasse sua língua - mal sabia que a situação era exatamente a oposta - caindo inconsciente em seguida.
A morte era certa, a única salvação era emprestar seu tubo. O corpo refletia sobre a situação: já sabia como, mas buscava o porquê, por que salvaria o outro corpo? Eles nem sequer conversaram, não se conheciam e nitidamente nada tinham a ver um com o outro. Mas não havia tempo pra decisões, e naqueles impulsos irracionais dos corpos, ele fez o que devia fazer. As conseqüências foram inevitáveis: assim que tirou o cano do umbigo, sentiu todo aquele sofrimento, o calor, o desespero, as sensações, os sentimentos, a fome, a sede e tudo mais. Sem falar no suor, que jorrava em ondas. O corpo salvo ainda dormia, mas apresentava melhoras.
Quando acordou, a primeira coisa que viu foi um corpo pálido, magro e doentio espremido no chão. Ao lado havia um desenho contorcido com traços tortos e tremidos, feitos com dejetos e retocados com suor. A figura mostrava um corpo em cima do outro, com duas trombas em direção a uma luz. O peludo demorou mais uma vez para notar o cano que saía do umbigo, mas não tanto para associar com as idéias da figura. Aproximou-se do outro corpo ao perceber que dizia alguma coisa.
A pergunta “Onde nós estamos, onde nós estamos, onde nós estamos?” não conseguia ser respondida com a frase “Não sei, não sei, não sei”, e essa pequena confusão comunicativa gerava um impasse. O corpo doente permanecia incapaz de concluir qualquer coisa, e mesmo se concluísse, não teria condições de falar. O corpo peludo por sua vez achava que quando não entendia o outro, era devido a sua condição debilitada.
Incapaz de se expressar de outra forma, o quase cadáver dobrou os dedos da mão deixando apenas o indicador levantado. Apontava para o desenho. O corpo sadio carregou o doente até o centro do círculo, colocando-o em suas costas. Ao se levantar, todas as forças do doente foram gastas no ato de jogar o tubo pra cima, em direção a lâmpada. O barulho de objeto sugado foi sinfônico, a outra ponta do cano não caiu novamente, o que caiu foi o corpo moribundo, sorrindo. Não estava morto, os nutrientes entravam e ele sabia, por isso sorria. O outro olhava tudo perplexo, mas inexplicavelmente calmo.
Não foi muito difícil perceberem que não falavam a mesma língua quando o corpo magro acordou. A dificuldade maior era um fazer o outro perceber que tinha percebido, pois nem mesmo isso era possível se dizer. Depois de tentarem muito, decidiram ficar calados, e assim ficaram. O silêncio foi longo, inclusive durou mais que as crises, que a viagem do corpo gordo e a luta pela sobrevivência do magro. Depois deu lugar a monólogos. Eles sempre se respeitavam, de modo que um nunca falava quando o outro falava, e se ouviam com cuidado, apesar de não entenderem nada.
As conversas progrediam sem compromisso. Se um falava de cores, o outro contava sobre cheiros, se um falava da vida, o outro falava da morte. E era justamente esse o tema quando o corpo velho falou pela última vez. Eles permaneceram deitados da maneira que estavam no início, só que o corpo da esquerda agora na direita, e o da direita na esquerda. De qualquer maneira isso não era importante, o importante era que não se viam, e mais que isso, que envelheciam, embora não percebessem. A imortalidade, para eles, parecia tangível, mas estavam errados. O velho de pés enrugados agora era cadáver.
O corpo gordo não sentiu falta do magro. Apesar de nunca mais ouvi-lo falar, sabia que estava ali, e que ficaria ali pra sempre. Ele falava sobre a luz nesse dia, e comparava com o preto que via no horizonte. Foi justamente quando terminou de falar, que a lâmpada se apagou.
Que loucura
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