Lembro - uma dessas lembranças que não conseguimos descobrir porque lembramos - a primeira vez que entrei numa sauna a vapor. Era criança, na faixa de uns doze ou treze anos. Nunca tinha visto aquilo, achei um máximo, embora não tenha conseguido ficar mais do que trinta segundos lá dentro. Até aí, nada de estranho em não saber porque me lembro disso, afinal de contas, as primeiras experiências marcam profundamente um ser humano. O que não sei porque me lembro se refere ao diálogo que escutei, mesmo sem ter entendido nada quando ouvi.
Havia um casal de jovens, entre quinze e vinte anos, e dois homens velhos, com seus pra lá de cinqüenta, sessenta anos. A adolescente, esculturalmente bela, chamava a atenção de um dos senhores. Indiferente a isso, o casal discutia a respeito das convicções amorosas do jovem. A menina questionava se o rapaz realmente gostava dela, ou se preferia outra tal amiga sua, ao que ele respondia, sem certeza, que tinha certeza que era dela que gostava.
Me mantinha encolhido no canto da sauna, já sem fôlego e olhando de soslaio na direção das vozes. Algum instinto me fazia pensar que olhar para o som, sem enxergar sua fonte, faria eu escutá-lo melhor. De qualquer forma, não tinha muito interesse no assunto, o que motivava era a superação de agüentar mais tempo lá dentro. E talvez aí venha minha maior fonte de estranheza em lembrar disso, pois o que me lembro com mais força é justamente a frase que um dos velhos disse ao outro, claramente se referindo de forma implícita à conversa dos jovens. Sei que “claramente implícito” soa paradoxal, mas foi isso mesmo... Ele disse:
“A natureza é muito sábia. Imagina se eu tivesse a inteligência que tenho hoje, na minha juventude? Não ia ter pra ninguém, eu namoraria todas as menininhas... Seria muita covardia, com a experiência que eu tenho, seria muita covardia. É por isso que só ganhamos experiência com o tempo, se já soubesse de tudo que sei hoje quando era adolescente, seria um Deus...”
Nesse momento fiquei sem ar, e sai. Não sei se minha presença foi percebida, não olhei para trás. Saí pensando no que o velho acabara de dizer, mesmo tendo a impressão de aquilo ser uma asneira. Depois de anos, inclusive depois de ter entendido, ainda assim, essa idéia ocupou as profundezas da minha mente, aparecendo de vez em quando, sem mais nem menos.
Claro que concordo com o velho, mas as palavras dele não deixam de ser uma asneira, como suspeitei quando jovem, mesmo sem saber que esse termo – asneira – existia. É absolutamente óbvio que existe uma relação profunda entre idade e experiência de vida. A relação entre a experiência e o objeto no qual se é experiente pressupõe justamente o tempo decorrido para se “experimentar”. Esse fundamento básico vale tanto quando esse objeto é a própria vida – onde o tempo é representado pela idade – quanto quando o objeto é um instrumento musical que se deseja aprender. Sim, claro, existem aptidões especiais, mas essas só servem para potencializar o processo de experimentação, sem deixar que o mesmo seja desnecessário. Mais uma vez não sei porque, mas penso que o velho, precisamente por ter falado aquilo, não tem essa aptidão para a vida.
Imaginei, com fervorosa imaginação - mas nunca tão eficiente quanto a sua - como estaria andando a confecção das Neuroses. A boa surpresa de ter lido este fragmento me inspirou. Obrigado.
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