Pequena Carta a F. Negreiros

Meu caro,

Que bom poder ligar o computador para um fim que não tem a menor dependência da Internet. São tão poucos ultimamente... Mas enfim, não é sobre isso que quero falar. Na verdade, quero apenas fazer uma pergunta. Antes de fazê-la, vou citar a inspiração, para dessa forma deixar claro que não há nenhuma intenção maliciosa na indagação. Albert Camus, no livro A Queda, discute muito a questão da seriedade, da falta dela principalmente. Eu mesmo vejo isso nos meus momentos de cenarização. Por exemplo, quando pego um ônibus e reparo nos garçons, porteiros, faxineiros, pedreiros, office-boys, enfim, pessoas mais humildes fora de seus ambientes de trabalho, entrando todos vestidos de rapper, com celular tocando funk pornográfico no volume máximo, não consigo deixar de achar ridículo essas pessoas reclamarem de seus salários. Não estou considerando, é claro, as circunstâncias que levaram a, digamos, essa espécie de falta de sensibilidade deles. Quando digo falta de sensibilidade, me refiro ao fato dessa pessoa não perceber que ela própria, se tivesse de empregar alguém em sua empresa, jamais contrataria alguém que se comportasse como ela se comporta. É sob essa perspectiva que a reclamação do salário vai soar contraditória. Voltando ao Camus, ele nos leva a pensar que existem 3 tipos de pessoas no mundo: as que se acham sérias mas que os outros não levam a sério, as que se acham sérias e têm esse respeito dos outros, e as que não se acham sérias. Dito isto, pergunto: em qual dessas categorias você se enquadraria? em qual enquadraria Erasmo Patajornas?

Impacientemente,

MLF

3 comentários:

  1. Meu caro lobo,
    Se não procuras um fim totalmente independente na internet por que "blogastes"?
    Mas discutindo sobre o FIM e não o meio, SE você está discutindo sobre sensibilidade e percepção partilho do mesmo ponto de vista, mas voltada sob o foco da consciência.
    É fato que hoje não temos sensibilidade à situação que nos rodeia pois por 100 vezes somos feitos de opiniões dos outros contra 1 opinião nossa, diminuindo assim a sensibilidade própria ao ambiente à nossa volta.
    E como ter consiência sobre a nossa realidade se fomos eximidos de percepção?

    ... mas SE você está discutindo sobre a pura seriedade, me diga qual a graça e prazer de ser sério? (desculpe não ter tido o prazer de ler o livro ainda)
    windson_ma@hotmail.com

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  2. ok, deixe-me entender o motivo de serem só 3 pessoas, e não mais. Aparentemente temos duas características que podem ser positivas ou negativas: a maneira como somos vistos, que convencionamos de positiva para o caso de sermos vistos como pessoas sérias, e negativa para o caso de sermos considerados pessoas não sérias; e a maneira como consideramos a nós mesmos.

    Sendo assim, não vejo porquê alguém possa não se considerar sério, e ser considerado sério pela sociedade. Consigo perfeitamente imaginar o tipo de pessoa que se enquadraria nesta quarta categoria, larápios, golpistas, políticos, líderes religiosos. Se você acha que existe algum motivo impeditivo de se ter um valor negativo de si mesmo, e ser considerado positivamente pela sociedade, isso não impede, entretanto, que eu responda à pergunta, pois com certeza não me encaixo nesta quarta categoria pelo simples fato de me le var, sim, a sério. Agora, mais não posso dizer. Não sei se me levam a sério, eu não tenho nada que comprove a seriedade da minha pessoa diante da sociedade (algo como um currículo escolar brilhante...) mas tenho uma personalidade forte, que faz com que eu mereça o respeito de algumas poucas pessoas, disso não tenho dúvidas. Saber como uma abstração simbólica da "humanidade como um todo" me veria, se eu seria aos olhos dos "outros" considerado ou não uma pessoa séria, não posso dizer.

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  3. Erasmo Patajornas definitivamente não é levado a sério (as vezes nem por nós mesmos), mas ele se leva a sério.

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