Tele-tela

- É claro que eu prefiro ler do que ver televisão.
- Sim, mas você não pode desmerecer quem tenha outra opinião. É uma questão de gosto...
- Não estou desmerecendo, e por mais bonito que seja essa discurso democrático, não posso deixar de formar uma opinião positiva a respeito de alguém que lê muito, da mesma forma como tenho uma predisposição negativa sobre alguém que passa o dia inteiro assistindo à televisão.
- Pois é, eu não concordo.
- Como não? Imaginemos uma pessoa que passe vinte e quatro horas lendo, todos os dias, e outra que no mesmo período ficou na frente de uma televisão...
- Claro, ela pode ter assistido a vários filmes, documentários, histórias, romances...
- Espera, deixa eu terminar!
- Mas você volta a essa ladaínha de julgar quem assiste televisão, cria uma espécie de modelo aonde encaixar os outros. As pessoas não caixas fechadas,
- Quê? Peraí! Não estou dizendo nada disso. Você me perguntou se eu prefiro livros ou televisão. O que quer discutir? Que não estou fazendo a coisa certa? Mas aí acontece uma contradição, não é? Pois se não posso dizer que livro é melhor, porque você poderia dizer que a televisão é?
- Você começou a usar um argumento pra depreciar quem assiste muito televisão, e também...
- Porra! Como assim? Eu simplesmente quis usar casos extremos pra mostrar os motivos da minha preferência. Não costumo usar a justificativa "é questão de gosto" pra tudo. Aliás, quanto mais puder evitá-la melhor.
- Bom, primeiro que você disse,"é claro que eu prefiro ler". Não acha que nessa resposta existe um certo preconceito?
(Silêncio)
- E em segundo?
- Segundo? Nada...
- Você vai deixar eu terminar de dizer o que estava dizendo?
- Claro, continua...
- Naqueles casos extremos, quem ficou vendo televisão o dia inteiro, por muitos dias, certamente terá algum problema de saúde relacionado à intensa luz sobre os olhos. Já o leitor não sofrerá desse mal. Isso sem falar que o leitor lembrará de muito mais informações a respeito do que leu do que quem ficou assistindo televisão.
- Não acho isso. O cara pode ter assistido a vários documentários, e inclusive aprender muito mais assuntos do que aquele que se limitou a ficar lendo.
- Não sei onde você quer chegar. Conheço alguns exemplos de pessoas que assistem televisão o dia inteiro, nenhuma delas assiste documentários. Acho que se uma pessoa assistisse documentários durante 24 horas, ela aprenderia que não deveria fazer isso. Alguém que restringe sua cultura à novelas e seriados, e também aos filminhos comerciais americanos, é intelectualmente menos desenvolvida do que alguém que lê muito.
- Quer dizer que se eu ler todas as obras do Paulo Coelho, serei "intelectualmente mais desenvolvido" do que alguém que estude o comportamento humano no Big Brother?
- Olha só. Eu acho que você deu dois péssimos exemplos. Não quero mais discutir isso...
- Como assim? Você é muito intransigente, não respeita a opinião dos outros!
- Porra! Você parece maluco! Pede a minha opinião para tachá-la de intransigente? Me desculpe, mas prefiro ter uma opinião a respeito das coisas do que aceitar qualquer porcaria como valor pra minha vida.
- Até aí tudo bem, mas você vai além e discrimina quem não tem essa mesma opinião.
- Tenho certas convicções que não acho passíveis mais de serem discutidas. Demorei muito pra conseguir chegar a essas verdades. Foi fruto de muito pensamento, reflexão, experiência e leitura. Então, se você me pergunta minha cor predileta, eu digo azul, mas não há um motivo racional consciente pra essa preferência. Por outro lado, o reconhecimento que dou pra literatura é de natureza diferente. Está acima de uma mera questão de gosto pessoal. Essa questão de gosto pessoal se reflete muito mais no que você vai ler do que no fato de você ler ou não.
- Mas a televisão pode funcionar como um facilitador dessa leitura, não acha? Ao invés de ter o trabalho de interpretar os caracteres, imaginar os cenários, podemos assistir tudo concretizado na nossa frente.
- Continuo condenando aquele caso extremo. A televisão jamais substituirá a literatura. O processo de interpretação dos caracteres e a imaginação do cenário são justamente os elementos que criam a mágica toda. O que diferencia o homem do resto dos animais é precisamente essa capacidade de imaginar e de raciocinar, certo?
- Certo, mas...
- Se eu for pra academia exercitar meus músculos, ficarei mais forte. De maneira análoga, podemos pensar que, se eu exercito minha habilidade natural de raciocinio e imaginação, desenvolverei tais capacidades. Agora, te pergunto: Você acha condenável gostar de desenvolver virtudes como essas?
- Claro que não condeno isso! Mas você desviou o assunto. Quem disse que a televisão não é capaz de desenvolver essas capacidades também?
- Quem disso isso foi você, quando apontou a diferença entre o livro e a televisão.
- Eu disse que a televisão facilitava...
- Se sairmos do caso extremo, podemos melhorar essa discussão. A televisão pode ser complementar à literatura. Claro que é uma diversão válida. Mas não é saudável se restringir a ela. Fora que é um instrumento muito perigoso de controle político, social e econômico, mas aí entraríamos em outro assunto. Você compreende, a partir dos exemplos extremos que eu dei, o que quero dizer? Não desmereço a televisão, adoro assistir filmes, mas de maneira alguma posso considerá-la, no que diz respeito à minha vida, ao meu bem estar, ao meu gosto, mais importante que a literatura.
- Compreender eu compreendo, mas não deixo de achar preconceito da sua parte. Há livros bons e livros ruins, há programas bons e programas ruins...
- A diferença é que você escolhe os livros que quer ler né?
- Não, isso não é uma diferença. Eu escolho também os programas.
- Você pode dizer que escolhe, mas até que ponto essa escolha é consciente eu não sei. Independente disso, não vejo onde você quer chegar com esse argumento. Não contradiz absolutamente nada do que falei...
- Paulo Coelho é bom?
- Não gosto. Provavelmente os leitores dele fazem parte também da audiência de programas como Big Brother.
- Definitivamente, você é muito intransigente!
 

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